A Difícil Arte de ser Eu, Tu, Ele, Nós, Vós, Eles e o Amargo Gosto da Hipocrisia

Hipocrisia é sinônimo de charlatanice, fingimento, impostura, mentira, falsidade, simulação... A conduta hipócrita é tentadora, viciante, eletrizante, fascinante! Quantas almas honradas acabam por sucumbir ao magnetismo desta feiticeira, realizando pactos com seus tentáculos labirínticos e suas beberagens narcotizantes?

Quero falar de política, sim. Porque quero falar de pessoas, de direitos e deveres, do poder das mistificações, de discursos de ódio, de patrulhas ideológicas, de amizades perdidas, de agressões verbais e físicas, de falta de amor, de falta de respeito, de movimentos oportunistas, de covardia intelectual, de adoráveis bobos da corte viciados no veneno diário da hipocrisia. Quero falar de Eu, de Tu, de Nós, de Vós, de Eles. Da gente. Da nação. Coletivo de pessoas fortes, trabalhadoras, solidárias, amorosas.

No dia seguinte à votação do impeachment registrei minha opinião numa rede social, na postagem de uma pessoa das minhas relações. Era uma conversa, um debate, um diálogo entre pessoas que se conhecem e deveriam se respeitar. Eu, inxirida, resolvo colocar a mão na cumbuca dos outros. Quem mandou? Fui agredida pelo dono da página, pessoa do meu apreço, das minhas relações de amizade:

“Ana Carolina Paiva golpista, parceira de Bolsonaro que defende o estupro de mulheres e torturadores de grávidas!”

Silêncio, desgosto, vazio, desilusão... Engulo, sem saliva, o açoite dado na praça pública virtual. A agressão verbal que fustiga a alma da gente e fica lá, decalcada. O sangue sobe até a face, fervilha lá dentro das veias e a ira, altiva, bota banca de rainha e nos arremessa para fora da gente.Como é que isso é possível? Viraram todos bufões, um séquito de defensores de um estado corrupto e autoritário de um dia para o outro? Artistas, professores, cérebros privilegiados, mentes brilhantes, amigos, queridos, amados... Cedendo com ardor à tentação de propagandear este governo que está aí. Este governo que zomba da República e escarnece da Constituição em nome de um projeto audacioso de poder!Quando o alarme soa, vem a onda que me arrasta, levando o meu quase nada para as profundezas de alguma coisa maior, é lá que eu tomo fôlego para voltar à superfície e respirar. Como é libertadora a sensação da verdade em nós! Da verdade legítima, tão acanhada, esmaecida e solitária. Só esta insignificante senhorinha é mesmo capaz de enfrentar a dama do embuste e seus sofisticados números de prestidigitação. Esta dama atrevida, gabola e sedutora chamada hipocrisia.

Será que no meio de todo esse tiroteio marcado por frases equivocadas, rasas, destrutivas, que se esquivam de imergir na profundeza das ideias, não existe um espaço para questionarem por que será que o futuro da República brasileira estava sendo resolvido num quarto de hotel por um ex. presidente? O medo da quebra de contrato com um modelo de governabilidade é capaz de obnubilar uma visão crítica sobre a realidade? Aqueles que asseguram que está em curso um golpe contra um governo eleito legitimamente também não percebem que Luís Inácio Lula da Silva, sem qualquer função no governo de Dilma Rousseff, negociou durante dias cargos públicos antes da votação do impeachment na Câmara dos Deputados com os mesmos deputados que votaram a favor do impeachment? Muitos destes deputados deveriam ser cassados por corrupção e ausência de decoro parlamentar, isso não se discute. E muitos já estão sendo investigados pela Polícia Federal por estarem envolvidos na Operação Lava Jato, o mar de lama em que se meteu este governo. Um destes deputados, Paulo Maluf, procurado pela Interpol, companheiro de Lula, participou da cerimônia da posse anulada do senhor ex. presidente, para ministro da Casa Civil. Sujeito que não tem moral para votar em nada e que acabou votando pelo impeachment também foi um dos seduzidos por Lula no quarto de hotel para votar contra.

O jogo sujo estava lá, diante de nós. Se o ex. presidente tivesse conseguido aliciar, com malas de dinheiro e cargos públicos, estes mesmos deputados execráveis seriam agora os heróis dos apoiadores do governo de Dilma Rousseff. Alguém duvida disso?

Dilma Rousseff mentiu, Dilma Rousseff cometeu estelionato eleitoral, Dilma Rousseff feriu o inciso VI do artigo 85 da Constituição Federal, desviando pelo menos seis bilhões dos bancos públicos para se reeleger! A presidente da República não se importou nada em expedir uma proposta de orçamento para o congresso contendo um superávit primário de 30 bilhões e no final do ano apresentar um déficit de 120 bilhões. E sabem por quê? Porque a Lei de Responsabilidade Fiscal não representa nada para a presidente, muito menos para o seu partido. Pois é preciso que ela e o seu partido entendam que leis orçamentárias e fiscais existem para que a sociedade possa exercer alguma fiscalização sobre os gastos do dinheiro público.O voto da maioria não torna legítimo qualquer ato do governante eleito. Golpe contra a democracia é inserir decretos secretos no orçamento ou comprar o apoio da base aliada ou arruinar a Petrobrás para aliança com empreiteiros no intuito de vencer as eleições ou tentar interferir no Supremo ou pressionar procuradores ou tentar obstruir a justiça...

Como o impeachment passou na Câmara dos Deputados entra em cena a picaretagem intelectual da esquerda que infelizmente sempre foi, e parece que sempre será, contaminada pelo misticismo e pela hipocrisia. Este comportamento execrável é exibido agora em dois momentos: nas reverberações aos lamentáveis discursos na votação do impeachment e à publicação do perfil da Marcela Temer realizado pela revista Veja.Para os apoiadores do governo de Dilma, como o meu amigo deselegante e arengueiro, aquele que é contra um governo corrupto de esquerda é automaticamente a favor de militares torturadores e de ditadores reacionários. Quanta trapaça! Quanta mediocridade intelectual! Quanta tramoia argumentativa!

E já que estamos aqui mesmo, que tal a coragem de falar do uso sujo de vitimização das minorias, rematando com uma dose indigesta de Wyllys, Bolsonaros e afins? 

A esquerda se comporta sempre de modo oportunista, vai sempre na onda do “dividir para conquistar”, mas ninguém pode dizer isso que é taxado de reacionário, de direita, de neoliberal e não sei mais quantos letreiros ofensivos e preconceituosos. Pois então! Lula fez um discurso onde conclamou a deputada Maria do Rosário e suas Mulheres de Grelo Duro e a deputada não achou nada demais nesta frase, achou até tudo uma gracinha. Em nenhum momento se ofendeu e entendeu que era uma frase machista. Mas tentem imaginar o escândalo se esta frase tivesse saído da boca de José Serra. Pensem num escarcéu!

Na boca de Aécio Neves não pegou nada bem a palavra leviana. No debate com Dilma, o candidato do PSDB teve a audácia de dizer esta palavra que significa imprudente, irresponsável. Pois foi suficiente para o ministro petista Jaques Wagner, ao lado do coro de defensoras do PT, não exatamente das mulheres, acusar Aécio Neves de xingar a presidente de mulher da vida. Não é notável como o PT e as esquerdas têm sempre um peso e duas medidas? 

O feminismo tem realmente a ver com o direito das mulheres? Com suas escolhas? Pois não parece. Se parece mesmo é com mais uma bandeira das esquerdas, que quer levar para dentro de casa e da família o conceito de luta de classes e o que é mais deprimente: se propõe a espalhar uma onda de rancor, inveja e ódio contra homens e mulheres conservadores, não se importando nada com as mulheres em geral. Por que Marcela Temer não pode ser do lar? Não foi uma escolha dela? A mulher não pode mais escolher ficar em casa cuidando da família que logo é agredida, estigmatizada, ridicularizada e taxada de machista. Isso não parece ódio? Não é rancor?
O feminismo, desgraçadamente, se parece mais com um movimento que não respeita as diferenças e com a ramificação de um sistema autoritário de ideias. 

Este é o feminismo oportunista que nada mais é que propaganda das esquerdas e não está nem aí para o real direito das mulheres já que não aceita e até ridiculariza o fato de uma mulher optar por ser do lar, mas aceita que uma mulher use burca por ordens do marido e tolere outras esposas, também por ordens do maridão. E sabe por quê? Porque o Islamismo faz parte das minorias oprimidas pelo grande vilão da humanidade: o homem branco heterossexual cristão do Ocidente. Alguém já viu uma feminista mostrar os peitos para um aiatolá de turbante?

Finalmente, quero registrar algumas linhas sobre os deploráveis discursos dos deputados federais na votação do impeachment. Discursos rasos, ridículos, pouco inteligentes, autoritários e violentos. Sim, sou uma pessoa barroca, que aprecia adjetivos!

Um deputado de direita pode louvar um torturador? Não! Não pode! Um deputado de esquerda pode cuspir na cara de um deputado de direita que louva as glórias de um torturador? Não! Não pode! Bolsonaro é um sujeito detestável politicamente que só abre a boca para dizer disparates abomináveis. Jean Wyllys é um fanfarrão, um covarde, um irresponsável. Ambos se alimentam um do outro e deveriam ser cassados o mais rápido possível.

Ocorre que a OAB do Rio de Janeiro vai entrar com um processo de cassação contra o deputado Jair Bolsonaro, mas ninguém até agora entrou com processo contra Jean Wyllys que não agiu com decoro parlamentar quando cuspiu na cara do outro. Cuspe não é argumento, caríssimo Jean Wyllys!

Contudo, entretanto, todavia, as esquerdas são sempre absolvidas e justificadas porque carregam o imaculado baluarte da benevolência para com os oprimidos. Papo para boi dormir! Ai meus sais! Já não aguento com tanta charlatanice!

Na mesma votação que passou o pedido de impeachment, alguns deputados de esquerda como Glauber Braga do PSOL e Valmir Assunção do PT renderam homenagens ao terrorista Carlos Marighella, autor de um manual do guerrilheiro com capítulo especial sobre execuções, que usava carros bombas que explodiam inclusive civis. Citaram ainda o assaltante de bancos, assassino e sequestrador Carlos Lamarca, que matou lentamente, junto com seu grupo, o tenente da PM Alberto Mendes Júnior com coronhadas de fuzil, após tortura-lo. Todos estes senhores homenageados foram certamente inspirados pelo imaculado Che Guevara que fuzilava mulheres grávidas e adolescentes, era homofóbico e racista. Mas era líder da Revolução Cubana, então tá tudo certo!

Os inimigos do PT não se resumem mais a ideólogos de direita. E sabem por quê? Porque o PT não tem mais qualquer credibilidade. Tornou-se um patético instrumento de gerar mistificações e renda para o partido e sua corte de apaniguados. Porque tratou pobre como mendigo e não realizou políticas verdadeiras para os mais pobres como saneamento básico, educação, saúde. Porque nunca se interessou de verdade pelo Brasil, porque tratou corrupto como herói. Porque bajulou ditadores e grandes empreiteiros, porque afastou toda a possibilidade de investimento internacional e fechou a nossa economia. Porque encheu o ministério de pessoas despreparadas somente para realizar conchavos políticos, inventando mentiras e gastando sem responsabilidade na cupidez de se reeleger mais uma vez e mais uma vez e mais uma vez!

Está aí o resultado: a depressão econômica, o assombro da inflação, o desemprego no infeliz patamar de dez milhões. Todo este péssimo prognóstico para o futuro do Brasil que deságua num mar pútrido de lama e corrupção. 

Quero que o meu amigo arengueiro saiba que não estou nada contente com o fracasso deste governo que ele defende com tanta idolatria, que me encontro absolutamente abatida com toda essa desventura que acomete o Brasil. E queria, de verdade, que tivesse dado certo, mas não dá para continuar defendendo traidores da pátria!




A Felicidade Nossa de Cada Dia

A felicidade é uma questão de olhar a coisa. A gente fica meio míope até determinada idade.

Os santos assim que largam os cueiros já saem por aí saltitantes de amor, paz no coração e entendimento da vida. 

A gente que é normal leva pau por anos e anos por déficit de atenção, "pobrema de espinhela caída", sentimentalismos existencialis, altas taxas de riqueza e de pobreza ou simples vagabundagem mesmo. Daí já viu: cisma em mentir, enganar, matar, invejar, roubar, falar mal do outro...



Quando tinha uns 15 anos era tristinha como um poço vazio, igualzinho aquele do filme da Samara. Carlos me falava, me mostrava que a janela estava logo ali na frente e eu só corria para o poço. Guardava um estoque generoso de choros e tristezas dentro daquele poço.

Agora que Carlos mora com os outros anjos eu consigo entender tudo o que ele dizia lá atrás entre sorrisos, cafezinhos e pão francês.

E, pensando bem... não é por nada não... sem querer alardear, cogito que Carlos ficaria bem-aventurado com o pequeno progresso de sua gatinha atrapalhada que vez por outra cai do muro no quintal do vizinho em cima do rabo daquele pitt bull cheio de dentes e com cara de poucos amigos.

Ainda no meu atrapalhamento, descobri duas coisas básicas bem legais: Não preciso realizar os Doze Trabalhos de Hércules e tenho a mais absoluta certeza de que Carlos me ouve, me vê, me sente daí da morada dos operários alados, incansáveis mestres de quem não teve o privilégio de nascer santo.

Convocação


Chama o grito da noite
E como dançam
Nus e embriagados
Animais e selvagens!
Tão bom vê-los assim
Com os olhos fechados!
Vem dançar comigo
Bosque nebuloso de mim
Se já não sonho,
Me arrebata daqui!
Toma de assalto o meu coração
Toda!
Faminta, sem amor, sem ardor...
Abram a porta
Deixem-me falar com o rei!
Perdendo o passo
Na pálida cidade
Os mortos no passeio público
Já nem dizem nada
Dói. Faz frio.
Só o instante do salto...
É preciso dormir...
E depois sonhar...

Livre-Pensadora

Num ímpeto de rebeldia, virei religiosa. Ser religiosa pra mim é o que há de mais rebelde, eu que nasci de mãe e pai ateus- se bem que papai, na reta final, bem que flertava com Thomas Merton e Krishnamurt! E eu que nunca fui batizada, cismei: tinha que ser! Arrumei um padrinho e duas madrinhas que são meus queridos amigos e fui lá, saltitante: batizar, crismar, fazer a primeira comunhão aos 24 anos quando morava num convento em Santa Tereza com uma agremiação de freiras fofas que me deixavam chegar tarde e ir ver meu teatrinho. Sofri bulyng, as invejosas, já que eu caí nas graças das freiras, foram dizer que eu fumava maconha no meu quartinho, o mais pobrezinho de todos. 




Tenho saudade de lá...Mas nem era maconha, era só o meu pacotinho de incenso. As invejosas tiveram que engolir seu veneninho todo. Nem sei onde foram parar, mas suspeito que estão sequinhas atrás de uma geladeira velha ao lado da barata com detefon e de uma pobre lagartixa que não tinha nada a ver com a história. Voilà! Quero conhecer melhor esse senhor subversivo chamado Jesus Cristo, quero conhecer alguns santos, conhecer a beleza dessa figura mítica que é Nossa Senhora. Mas o mais legal disso tudo é o exercício de doação, de me esvaziar, deixar de lado essa parada de me auto-referenciar o tempo todo pra ouvir o outro. Manja? Fazer o bem sem olhar a quem? Teatro épico? Teatro narrativo? Sem melodrama? Sem procurar saber do paradeiro da mocinha? Sem o eu lírico exprimindo os sentimentos do autor? Vamos fazer a revolução sim, mas sem arrancar nenhuma cabecinha na guilhotinha. Amemos as cabeças pobres, burguesas e aristocratas que ninguém sabe o dia de amanhã e esse papo de matar em nome da justiça já era, já foi e tudo seria menos triste se cabecinhas tão diferentes como a de Maria Antonieta e a de Danton ficassem mesmo em seus pescoços de gente. Ponto. Gente... A obra mais linda e perfeita de Deus!

Sex and Rio


Sabe o que eu não tenho saco: discurso esquemático, pronto, saído do forno. Tipo: a indústria do entretenimento é nociva, a televisão não tem nada que presta... todos esses discursos arrematados pelo senso comum. É como se a criatura humana: pobre, rico, preto, branco, amarelo, enfim, não tivesse livre arbítrio e tutano para desligar ou simplesmente zapear com aquela coisinha mágica chamada controle remoto aquela porcaria que estaria passando... (minha singela homenagem aos operadores de telemarketing) 



E mesmo que tudo esteja realmente uma merda para os padrões intelectualóides-novela, reality shows, aberrações, et que veio num sei da onde ajudar a construir as pirâmides do Egito, sit cons, etc, no meio desse caldeirão todo é possível vislumbrar um horizonte como a boa, velha e já ultrapassada série americana Sex and the City. Que coisa mais boa da conta de se ver! Aquilo é um verdadeiro manual da alma feminina e a protagonista é uma fofa com sua beleza "esteticamente mal resolvida" e fora dos padrões. Os diálogos de graça, valem muito mais que muita ida a consultório de psicanálise. O tema ontem era fé. E o namorado do Carrie Bradshaw por quem ela está completamente arriada nem mesmo a apresenta para a mãe e ainda diz: "tenha fé, quem sabe um dia eu te apresento pra minha mãe quando tiver certeza que vc é a mulher certa?" No dia seguinte ele aparece no seu carrão de motorista com passagens para o Caribe e a Carrie, tchan, termina com o gostosão de cabelo pintado. 

Claro que a personagem fica arrasada, então vem os pensamentos da escritora: "Chorei por uma semana, mas percebi que tenho fé, fé em mim. Pois tenho certeza que um dia vou conhecer um homem que não terá dúvidas de que eu sou a mulher certa." Uhú! As falas dessa personagem levantam a auto estima de qualquer mulher. Ponto para o velho, americano, enlatado, clichê e muito bom Sex and the City!

 PS: Estou dando um tempo nas saturnais de Baco. 

O Regresso do Capitão




Da porta para fora o tempo estava bom. Firmou. A chuva que caiu por três dias sem trégua agravara não só a gota, a artrose, a artrite reumatóide, assim como a otite, a sinusite, a bronquite.

Naquilo que sua vista fitava havia mesmo um brilho incomum: o verde na montanha, o branco nas pipocas saltando na parte interna da carrocinha; o negro no asfalto e no rabo do gato por entre as linhas horizontais acobreadas do portão eletrônico de metalon do vizinho enjoado; até o azul claro no céu e escuro na porta da birosca inquietavam a vista.

Nos caminho até à praça, sob um assente aconchego solar quase não sentia dor e caminhava sem precisão de parar a cada três passos para tossir ou respirar melhor.

Avistou o banco vazio, logo desanimou: levantar daquele banco seria tão arriscado quanto mortificante. E se tivesse uma zonzeira? Lá estava o enxame de rostos estranhos a lhe oferecer o braço e tirá-lo da passagem como uma coisa despencada congestionando a via pública. Pois sim!

De pé, encostou-se à figueira. Com os olhos fechados, esquadrinhava o esplendor daquela manhã. As narinas dilataram. Sorveu do jasmineiro, das jaqueiras, dos corpos suados que passavam, de toda a atmosfera candente da praça.

– “Manhã, tão bonita, manhã...” Expulsava a canção num solfejo baixinho e destoante. Cuidava pra não perder a voz. Continuamente projetava um ruído qualquer, embora o som abatido e agudo daquela voz decrépita não fosse capaz de ocultar entre a pausa dos silêncios o rigor da mocidade: de jamais confiar, de não se entregar, de só se valer.

Nesse dia de calor a alma era invadida por aquela estrangeira alegria. Justo agora que já não se importava com a solidão, o silêncio, os fantasmas da casa, vivendo com ajustada fleuma a expectativa da chegada da morte, num abandonar-se exemplar, sem alardes.

Tudo havia sido esquematizado com a mortuária de Zé Reinaldo, o sobrinho de Anchieta. Pulando a etapa do velório e do funeral, o traslado das cinzas até o Rio Carangola em Tombos ficaria a cargo do filho de Elvira, a dona da padaria. Já tinha um combinado por procuração e tudo com a mãe do rapaz, que ainda era menor de idade, mas tinha uma queda pela morte e realizaria o serviço com todo gosto. E agora isso. Essa vontade de viver!

- Será que encontro o paradeiro dela? Articulou o mais alto que pôde, puxando o ar com força, tentando se apoiar na figueira com as costas para não despencar no chão. Era oxigênio demais para um corpo tão combalido. Logo a vista escureceu trazendo um aroma de maresia. Desabou sob a terra áspera.

- À toa, Ifigênia fitava o mar. Longas horas... Abandonada sob o sol. Namoro com o mar. Possuída pela brisa marinha, todinha. À toa... Era feliz perto de toda aquela água...

Falou muito arrastado, querendo ar. Olhava fixo na direção da moça que apanhava sua cabeça alva entre as mãos. Ao seu redor, outros desconhecidos:

- Esse é o capitão?

- Não tinha morrido?

- Morreu não.

- Parece que se esqueceram dele...

-Melhor mandar pro hospital. Ajuda aqui a levantar!

- Não! Pensou que gritava, mas a voz era um fio.

- Preciso encontrar uma moça. Ifigênia. Disse que me esperava. Que quando voltasse, procurasse por ela. Nunca voltei... A guerra é uma coisa muito feia. Fui-me embora em novembro de 1944. A gente usava o jornal socado dentro do coturno, dava frio nos ossos. Era eu e Vicente. Companheiro bom! Usava um perfume adamado, presente de Rosa, a prometida. Dois soldados rasos. Da infantaria, vejam bem! Deixei Ifigênia com o mar que ela tanto adorava. Ifigênia me deu um bentinho milagroso feito pela mãe dela que era muito religiosa, metida a beata. Deu-me também o retrato dela de maiô. Fui-me embora pra nunca mais voltar...

No meio do cardume de curiosos uma menina muito magrinha de vestido vermelho ralhou:

- Fugiu de casa de novo, danado?! E sem comer! Vem! Mandaram te buscar.

- Conheço você! É a menina que roubou minha baioneta enquanto eu cochilava. Estou definitivamente à mercê do inimigo agora. Percebem a gravidade da coisa?

- Dá aqui tua mão. Ifigênia mandou te buscar.

- Quem é Ifigênia?

A menina piscou o olho, malandrinha: - Ifigênia é uma dama que tem poderes extraordinários. Com suas mãos de fada ela cura as pessoas doentes do corpo e da alma. Vem!

O capitão foi andando até o mar de braço dado com a menina de vestido vermelho que era só cuidados e doçuras com ele.

- Tá aqui o fujão, vovó. Agora eu vou nadar.

- Hoje pensei que o senhor não voltava mais! É só o tempo ficar bom que se embrenha no meio da multidão. E do banho de sol? Se esqueceu foi?

Ifigênia era uma senhora magra como a neta Clarinha, tinha os cabelos prateados quase na altura dos ombros, linhas delicadas e olhos verdes grandes, agateados, brilhantes. Era bonita. O capitão olhava perplexo:

-Ifigênia? Você me esperou mesmo. Viu que trouxe de volta o seu retrato de maiô? O bentinho não sei onde foi parar...

-Não tem importância não. Lembrou de mim? Mesmo assim tão velha?

- A senhora ainda é a mais formosa de todas.

- Dá tua mão. Ih, tem que cortar essas unhas!

Ifigênia olhou bem fundo nos olhos pequenos e opacos do capitão. Segurou sua cabeça entre as mãos, passou os dedos delicadamente sobre o seu rosto, tracejando o contorno das sobrancelhas, o escarpado do nariz aquilino, a boca ainda bem feita que súbito beijou com afobação para logo repetir o gesto com toda a delicadeza:

– Amanhã, vamos a Paquetá! Disse Ifigênia num rompante antes de se virar para admirar outra vez o mar. Ainda sem disposição para sorrir, o velho combatente encheu o pulmão de ar num suspiro serenado de quem finalmente chegara a uma paragem segura e acolhedora.


Primavera em Lisboa


Nas minhas fantasias invento habituais visitas aos cenários das gestas de cavalaria: pântanos, bosques, lagos laureados por densas brumas que desafiam o medo. Atraída pelo fantástico, pela beleza e por tudo aquilo que se encontra além da existência prosaica.

Puck, Ariel, Oberon, Titânia, ninfas e outros artífices invisíveis perceberam meu estado lastimoso, lamuriento e enfadado. Propuseram uma assembléia com Dionísio e as Bacantes, que são os manda chuva das florestas, e se prontificaram a urdir um poderoso estratagema para que eu pudesse conhecer um cavaleiro de verdade, já que a oferta de cavaleiros andantes havia escasseado com a mão de obra barata de sapos verruguentos e com pouco assunto além do “urebe, urebe” habitual. Coisas do capitalismo, enfim...

Só sei que as criaturas invisíveis e zombeteiras me fizeram tomar um tal mel de rosmaninho, conservado na charneca de uma mandingueira, lá pelas bandas da estação de metrô Picoas na cidade de Lisboa.

Quando dei por mim, voava dentro do bico de uma cegonha ao lado de centenas de bebês delivery. A ave estava avexada com entregas na Groelândia, na África Ocidental, no Paquistão, na Grécia e na China, onde pagavam um dinheirão por um recém-nascido extra.

E eu nem pude apreciar Lisboa se abrindo em primavera já que a cegonha teve a ousadia descabida de me jogar pela chaminé de um tal Magnetic, rasgando o meu vestido de lantejoulas que se transformou numa sainha curta de piriguete.

Foi neste lugar, no dia 25 de abril de 2008, meio descabelada e com a saia curta, que conheci o Alberto Artur Rosmaninho. Fingiu que era um simples cidadão flanando pela cidade, mas quando adentrou o recinto bem que vi a capa de arminho, o cetro e a coroa que ele guardou numa sacolinha horrorosa amarela.

Agora quando eu fico triste ele não deixa. Atravesso portas, subo muros altos, caio, levanto, calo, grito, mas sempre volto pra dentro do seu manto azul, cálido, perfumado e adornado por um céu de pirilampos.